A Síndrome da Mulher Maravilha: uma heroína cheia de feridas?

Hoje eu vou falar com você sobre a Síndrome da Mulher Maravilha, você já ouviu falar?

Para começar, vamos entender quem é a personagem que dá nome a essa síndrome. Diana é uma princesa guerreira que após descobrir sua força, resolveu abrir mão da sua zona de conforto, da sua segurança na ilha onde ela morava com as amazonas para tentar colocar fim em uma guerra mundial, pois sentia-se responsável por trazer a paz para a humanidade. Uma missão nada simples, não é mesmo?

Dá para entender o motivo da síndrome ter esse nome a Síndrome da Mulher Maravilha, nós mulheres as vezes temos esse senso de responsabilidade como Diana, o anseio pela justiça, por proteger os inocentes, por abraçar o mundo e resolver todos os problemas das pessoas a nossa volta, nos fazendo lutar em batalhas que não são nossas, percebi o quanto nós mulheres agimos como a princesa Diana e isso fez um completo sentido pra mim.

No filme mais recente da heroína você percebe essa luta da mulher pelo que é de direito, é como uma analogia da nossa história, desde criança Diana é uma lutadora, ela cresce, descobre sua identidade e entende um pouco mais o seu poder; e, a partir do momento em que ela reconhece a sua força, ela decide que tem que fazer algo mais, e ela quer fazer esse algo mais.

E aí? Você se identifica com esta história? E esse querer “abraçar o mundo” é natural das mulheres realmente, mas será que é saudável? Por que é chamado de síndrome?

Fica comigo que você vai entender…

Para você ter uma ideia, essa síndrome surge exatamente da necessidade feminina de aceitação, mesmo a superpoderosa princesa Diana, tinha a necessidade de ser aceita e aprovada por sua mãe, são ideias como: “Se eu for perfeita, serei respeitada, valorizada e digna”. E então, ao tentar equilibrar seus múltiplos e conflitantes papéis como super mãe, super esposa, super dona de casa, super filha, super irmã, super amiga, super carreira, super colega e super concorrente, a mulher chega a um ponto de esgotamento tanto físico como emocional, até porque normalmente, além de desempenhar vários papeis, ela ainda é perfeccionista, quer fazer tudo e ainda do melhor jeito.

No seu Livro “A coragem de ser imperfeito”, Brené Brown comenta “O modelo de vida atual, a quantidade de coisas que a mulher exige dela mesma vai além do que se pode aguentar. E quando ela não dá conta de tudo, se sente frustrada. Acorda no dia seguinte já se programando para fazer ainda mais e melhor. E a simples ideia de uma pausa se torna cada vez mais impensável.”

Essa síndrome vem da fantasia de que você pode ser tudo, claro que cada mulher tem muito potencial, mas como mulheres, não somos responsáveis por exemplo, pelas escolhas que outras pessoas fazem e, quando você faz o seu melhor e mesmo assim as pessoas não te escolhem, há um sentimento de que é sua culpa, quando na verdade, não depende de você.

Nem a Mulher Maravilha podia interferir nas escolhas que os homens faziam, como você pode ver no filme, ela precisou em um momento aceitar que isso não cabia a ela mudar.

Precisamos da mesma forma compreender que não é nossa culpa as escolhas de nossos familiares, amigos, filhos, por mais difícil que isso seja, e por mais que você saiba que as escolhas trarão dor e sofrimento, a escolha pertence a cada pessoa, não podemos protege-las sempre.

Vou te falar algumas coisas sobre a Síndrome da Mulher Maravilha e a última é a melhor de todas elas.

A HISTÓRIA POR TRÁS DO GIRL POWER

Conquistamos o direito a muitas coisas com o passar dos anos, e isso foi de fato empoderando as mulheres. Elas descobriram sua força, porém, seu uso de forma desequilibrada gera efeitos catastróficos. Provavelmente esquecemos de um direito básico: o direito de ser imperfeita! Tudo bem errar; tudo bem ter momentos sensíveis, tudo bem não saber o que fazer em determinadas situações. Tudo bem ser humana!

Sabemos que foi preciso muito trabalho para as mulheres encontrarem sua força e se reconhecerem como sujeitos de direito, mas provavelmente será necessário o dobro do trabalho para equilibrar todo esse potencial descoberto e focá-lo de forma correta.

Ao contrário de Diana, a Mulher Maravilha, nós não temos esse organismo imortal, precisamos cuidar da nossa saúde física e de nosso bem-estar, a sobrecarga para nós pode ser fatal.

A expectativa tanto interna quanto externa para ser a melhor no trabalho, nos estudos, em casa, com as pessoas onde formos, com a nossa comunidade, tudo isso nos leva à esta síndrome, pois não podemos nos medir com a medida de outras pessoas, quando dizemos que queremos ser as melhores, isso seria no ponto de vista de quem exatamente?

O seu melhor é diferente do “melhor” dos seus pais, do seu chefe ou dos seus professores. A competitividade no trabalho, por exemplo, pode comprometer o sucesso de uma equipe assim como no casamento ou na família.

Ser “melhor” é uma ideia de que precisaria sempre superar o outro para se destacar, para se sentir bem, no entanto, já dizia um provérbio africano: “Quem corre sozinho, vai mais rápido, mas quem corre acompanhado, chega mais longe.”

O fato é que, mesmo tendo descoberto todo seu potencial, a mulher ainda precisa saber como canalizá-lo para que realmente seja eficaz e benéfico. Não há nada de bonito ou heroico no esgotamento físico e emocional, essa seria na verdade uma atitude muito similar à máscara chamada na psicanálise de “Masoquista”, que é quando a pessoa se sobrecarrega propositalmente e depois reclama de estar sobrecarregada.

Normalmente essa pessoa tem consciência do que quer, porém é o tipo de pessoa que menos ouve suas próprias necessidades, faz de tudo para se tornar “Útil”, tenta fazer tudo pelos outros. Provavelmente você vai lembrar de alguém que já disse “cansei de bancar a empregada” ou “quanto mais eu faço, mais meu chefe exige de mim”, mesmo com todo sacrifício, raramente o reconhecimento vem, muito pelo contrário, quanto mais uma pessoa se sacrifica, mais os outros acabam se aproveitando e infelizmente, isso se deve à falta de limites que a própria pessoa tem: a dificuldade de dizer não para aquilo que é ruim ou demais.

A principal consequência dessa síndrome pode ser um estresse crônico que se desenvolve silenciosamente, por isso é chamado inclusive de “assassino silencioso”.

O processo desse estresse começa com culpa (não consigo fazer tudo), passa para frustração (o suficiente não é o suficiente) que vira uma irritação (não tem a sensação de realização, porque sempre há algo mais a ser feito), depois o ressentimento (não tenho tempo pra mim), chega no descontentamento (está descontente com a situação porque não está lidando com as coisas) e por fim se transforma em sintomas físicos e emocionais.

QUER SABER SE VOCÊ TEM ESTA SÍNDROME?

Faça o teste… se sua resposta for sim para a maioria das minhas perguntas, provavelmente você precisa rever sua forma de agir, então vamos lá:

  • Você sente dificuldade em dizer não?
  • Você coloca a necessidade das outras pessoas à frente das suas?
  • Você precisa se sentir no controle e fazer tudo?
  • Você sente que precisa ser perfeita em tudo?
  • Você assume cada vez mais responsabilidades?
  • Você fica impressionada com sua lista de tarefas?
  • Você se valoriza pela sua produtividade?
  • Você quer ser tudo para as pessoas?

E então, como foram suas respostas? Podemos perceber que tentar fazer tudo, ser tudo, abraçar e salvar o mundo pode ser demais e ter um preço alto tanto para você como também para as pessoas próximas, por isso precisamos muito equilibrar essa nossa força.

Por isso mesmo, agora vem o pulo do gato… a última parte dos 3 pontos que tenho para te falar sobre a Síndrome da Mulher Maravilha, AS DICAS PARA CONQUISTAR O DIREITO DE SER IMPERFEITA!

Mudar nossos padrões nem sempre é simples ou fácil… exige tempo, disciplina, esforço, gera desconforto, mas compensa. A primeira coisa é que precisamos não focar tanto no que podemos fazer, você precisa entender a importância a satisfação e o significado de SER!

  1. Reserve um tempo para si

Literalmente! Pegue sua agenda e reserve um horário para fazer alguma coisa por você mesma, em seu favor. É necessário investir em si. Pode ser:  tomar um café em um lugar que você goste, ou parar para ler um livro no jardim.

  1. Revise sua lista de Tarefas

Provavelmente você ama sua lista, especialmente quando conseguiu cumprir todos os itens, mas é hora de repensar, o que realmente é importante e não pode deixar de ser feito? Que coisas na sua lista podem ser feitas depois de você fazer uma pausa?

  1. Cuide com o excesso de passado ou de futuro

Aprenda a viver o seu momento, reviver o passado ou ficar pensando demasiadamente no futuro não vai ajudar em nada. O teu passado já passou e o futuro ainda não chegou, então viva seu presente da melhor forma possível. Dizem que ansiedade é excesso de futuro e depressão é excesso de passado, até que tem lógica, não é mesmo? Vamos evitar essas duas coisas.

  1. Respire de propósito

Já parou para pensar que raramente nós respiramos propositalmente? Se possível, esqueceríamos de respirar, assim como esquecemos de comer ou ir ao banheiro quando estamos concentradas em uma tarefa importante.

Então, pare! Simplesmente pare e respire profunda e lentamente, desconecte-se por um momento e pense somente na sua respiração. Essa é uma pausa muito valiosa, oxigena o cérebro e relaxa o corpo.

  1. Tenha Prazos Realistas

Lembre-se:  você não é um robô ou uma “Princesa-Amazona-Deusa-Heroína” como Diana, defina prazos que você é capaz de cumprir, gerencie suas expectativas e as dos outros prometendo apenas o que você consegue com certeza fazer. O restante é bônus!

  1. Aprenda a dizer não

Acredite, isso é libertador! Você pode dizer não quando uma tarefa for demais, quando não puder ficar de babá, quando tiver um compromisso e não puder buscar o “filho do irmão da sua avó” no aeroporto, quando não estiver disposta para conversar no seu horário de descanso ou quando te pedirem para ficar até mais tarde para cumprir uma tarefa de outra pessoa que teve o dia todo para fazer, mas não fez.

Estabelecer limites é uma das mais importantes coisas que você pode fazer por si mesma. Dizer não para o que te faz mal ou te sobrecarrega sem sentir-se culpada ou menos “boazinha”.

Tenha o controle do que você pode controlar e deixe que as pessoas à sua volta também assumam sua responsabilidade por seus erros e acertos, como uma roupa que vão precisar para o dia seguinte, um trabalho escolar que esqueceram de fazer, um compromisso de última hora que surgiu para sua irmã que não tem com quem deixar as crianças, ou uma consulta médica que seu chefe esqueceu.

Pode ser que as pessoas ajam como se fosse sua responsabilidade, e provavelmente o fazem porque você já “deu cobertura” antes, mas não é sua responsabilidade, você estava apenas fazendo o favor de atender seus sobrinhos, ajudar seu filho no trabalho, preparar antecipadamente a roupa que seu marido vai usar no dia seguinte ou lembrar seu chefe de um compromisso de sua agenda pessoal.

No começo pode parecer difícil e talvez você se sinta culpada por dizer não, mas você estará dando a chance dessas pessoas assumirem a responsabilidade por sua própria vida e isso é um presente pois nem sempre haverá alguém para assumir as responsabilidades deles. Faça o teste! Liberte-se! Diga não quando precisar dizer.

  1. Pratique atividades que promovam bem-estar

Escolha a que for melhor para você: Ioga, Meditação, Reflexologia, Massagem, Montar quebra cabeças, Caminhar na natureza. Essas atividades te ajudam no equilíbrio interior e reduzem o stress.

Inclusive foi comprovado cientificamente que mulheres que fazem terapias com massagem tem o stress reduzido em até 25%.

  1. Invista em uma alimentação saudável

Muitos alimentos ajudam no relaxamento, ajudam a dormir melhor, ajudam a se sentir mais leve, então, invista em uma alimentação que ajude seu organismo como legumes, nozes, peixe, frutas e saladas.

Também existem alimentos que fazem o efeito contrário e podem ser evitados em nome de uma melhor qualidade de vida como açúcar, estimulantes e carboidratos.

  1. Conheça e respeite a si mesma

Lembra de um comercial onde diziam “você não é você mesmo quando esta com fome”? É mais ou menos isso, cada pessoa reage diferente à privação de sono, de alimento ou até mesmo à privação de ir ao banheiro. Dizem até que o termo “enfezada” significa que não conseguiu evacuar, e normalmente isso altera diretamente o humor. O etimologistas contestam essa origem. Como dizem os italianos, se não é verdade é muito bem inventado…

Saiba se conhecer, se estiver com fome, com sono, constipada ou com muita vontade de ir ao banheiro, cuidado com as decisões, é recomendado nunca tomar uma decisão se não estiver com suas necessidades básicas supridas, o ideal é mesmo parar e cuidar do que é básico antes de concluir qualquer trabalho.

Sim, muitas de nós mulheres trabalhamos sob pressão de prazos, mas atender sua necessidade fisiológica mais básica não é perder tempo, pelo contrário, vai acelerar sua produtividade. Respeite seu corpo!

  1. Terapia é sua amiga

Entenda que terapia é sua amiga, hoje em dia tem as mais diversas abordagens que podem ser muito assertivas no caso da síndrome da Mulher Maravilha. Por ser uma questão de comportamento destrutivo, a Terapia Cognitivo Comportamental por exemplo, pode ajudar na mudança dos comportamentos destrutivos. Já a psicanálise vai descobrir a raiz desse comportamento, te ajudando a refletir a respeito do motivo que te faz querer ser perfeita: seria a aceitação de seus pais? Seria algum trauma? Vale refletir e escolher o tipo de terapia com o qual se identifique.

  1. Saia da rotina

Experimente uma coisa nova, tire o foco daquelas crenças negativas a seu respeito “eu não consigo”, “eu não posso” e faça algo novo fora da sua zona de conforto. Isso ajuda seu cérebro a criar novos caminhos e, portanto, novos comportamentos.

  1. Aceite-se

Volto a dizer, tudo bem não ser perfeita! Aceite seus erros como forma de aprendizado e da próxima vez vai acertar. Você sabe quantas vezes Thomas Edison falhou antes de ter a primeira bateria? Apenas 25 mil vezes!!! E o mais surpreendente foi a resposta que deu aos repórteres que perguntaram como se sentiu fracassando tantas vezes: “Não sei por que você acha que foi um fracasso. Hoje eu conheço 25 mil maneiras de como não fazer uma bateria.”

Então, estamos conversadas, não é mesmo? Se Thomas Edison falhou 25 mil vezes e considerou um sucesso, podemos falhar as vezes também!!!

LEMBRE-SE QUE VOCÊ É MARAVILHOSA SEM PRECISAR SALVAR O MUNDO TODOS OS DIAS, SÓ PELO FATO DE SER VOCÊ MESMA.

Ame-se, permita-se dizer não para as coisas ruins e sim para as coisas boas. E especialmente, invista tempo em se conhecer melhor para poder respeitar sua natureza, seu tempo e sua maravilhosa individualidade.

Você mulher, tem uma força imensa, assim como nossa amiga Mulher Maravilha, uma força que ainda desconhece e pode ser potencializada sem que você se desgaste, sem que você se sobrecarregue. Você pode aprender mais sobre a sua força, mas isso é assunto para um próximo vídeo!

FONTES

Wehrhahn, Janice. Wonder Woman Syndrome. Disponível em: https://theburnoutqueen.com/burnout/wonder-woman-syndrome/

Direitos da Mulher. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/direitodasmulheres.htm

A ONU e as Mulheres. Disponível em: https://nacoesunidas.org/acao/mulheres/

Maleficios da competitividade no trabalho. Disponível em: https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/maleficios-competitividade-trabalho/

Giacomo, Fernanda. Síndrome da Mulher Maravilha. Disponível em: http://mulheresemequilibrio.com.br/sindrome-da-mulher-maravilha/

Mais autonomia, conquistas e o direito de ser imperfeita. Disponível em: https://www.vidaeacao.com.br/mais-autonomia-conquistas-e-o-direito-de-ser-imperfeita/

 

 

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Tais Caldas

Sou Tais Caldas, idealizadora e facilitadora do Programa Círculo Feminino. Desenvolver grupos de mulheres interessadas em autoconhecimento, resgate de autoestima e redescoberta do prazer na vida. Possuo Capacitação em Saúde e Educação Sexual pela ABRASEX – Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual. Além disso, crio arte em aquarela e sou uma amante da aromaterapia, sendo esses meus hobbys. Formada em Relações Internacionais pela PUC-SP e pós-graduada pela Unesp. Atualmente estou em minha segunda graduação, em Psicologia.

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